Tinha um clarão no fim túnel, era Messi – a Alemanha procura o seu

Messi Argentina 2022-23
Getty
A impressão é que não bastará à Alemanha jogar bem, mas sim decidir

O primeiro gol exibido em Todos os Corações do Mundo, filme do Mundial de 1994 e mais bem-sucedida ideia cinematográfica das Copas, é a arrancada de Saeed Al-Owairan contra a Bélgica, em Washington, que garantiu a vitória simples da Arábia Saudita ao passar por meio time, tocar na saída de Preud'homme e ver a bola atravessar a linha da história.

A cada quatro anos essas imagens vão se organizando na nossa memória, que já arruma um espaço para o domínio de gol de Asano, o voleio de Richarlison, a defesa de Szczęsny, o totó da Espanha, o chute de Cheshmi nos acréscimos. Para o gol de Messi.

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No jogo mais tenso do torneio até aqui, não havia indiferença. Parte das pessoas torcia para a Argentina, não queria ver tamanha seleção eliminada com a Copa ainda na alvorada, completando a primeira semana. Outros tantos colocam a rivalidade acima de tudo e preferem desfrutrar do sofrimento dos vizinhos, de preferência o quanto antes, desclassificados pelo primeiro México que aparecer pela frente.

Mas aí o passe veio do lado direito, Messi escorou e soltou a perna esquerda mais eficiente que já se viu. Gol. Apaixonados e secadores se entreolham e trocam sorrisos aliviados, porque agora pouco importa, o que resta é uma caixa de Messi, os cotovelos apoiados no balcão, aquela sensação inabalável de presença, de presente, o Messi pegou o drama e guardou num chute de longe, está feito mais um trecho do filme da Copa.

A vitória da Argentina sobre o México lembrou um daqueles velhos jogos de Copa Libertadores, quando a atmosfera, o nervosismo e a briga pela bola eram tão avassaladores que se tornava impossível perceber quem era realmente bom de bola. Nessa maravilhosa noite de Lusail, que poderia ser o Centenário de Montevidéu ou o Doble Visera em Avellaneda, não houve melhores momentos até o camisa 10 tirar um gol difícil, ainda que dele se espere. O lance que engole as questões técnicas, táticas e mentais de um time contra as cordas e vai direto para o nosso Todos os Corações do Mundo particular.

Enfim, a equipe de Scaloni, campeã da América, ex-invicta e que atropelou a Itália na Finalíssima de Wembley, se livrou de ser a primeira grande equipe a acabar eliminada precocemente no Qatar menos pelo jogo leve e coletivo que se projetava (antes de tomar uma virada para a Arábia Saudita) e mais porque surgiu um chute inesquecível. Ao rever todos seus traumas e voltar ao recorrente dia pautado quase que exclusivamente pela emoção, surgiu não uma luz, mas um clarão no fim do túnel. A Alemanha entra em campo neste domingo ainda procurando quem pode alcançar acontecimento semelhante.

O time começou a Copa bem, fez ótimo primeiro tempo contra o Japão, mas terminou derrotado numa remontada surpreendente. Daí vem o segundo jogo logo contra a Espanha, o time do 7 a 0 na abertura que, quando encontra o jogo, praticamente impede o adversário de fazer o seu.

A impressão é que não bastará à Alemanha jogar bem, mas sim decidir. Há quatro dias, à parte a grande atuação do goleiro japonês Gonda, a equipe de Hans-Dieter Flick finalizou 24 vezes, mas marcou só de pênalti. A bola não chegou muito em Havertz, Muller esteve pouco inspirado, Musiala perdeu boas chances e Gnabry também não conseguiu ir às redes na sua característica de vir da ponta para dentro da área. De fora, Gundogan bateu na trave. Não houve um Messi, um disparo letal.

Mas, que sorte. A surpreendente vitória da Costa Rica sobre o Japão na manhã deste domingo foi um alívio. A Alemanha almoça sabendo que não pode mais ser eliminada já neste segundo jogo. Tira o peso visto pela televisão ontem, e vai mais tranquilo para aquele que desde o sorteio é o jogo mais aguardado da primeira fase. O mundo quer saber se a Alemanha, no fim das contas, é forte ou não é, e também se Pedri, Gavi, Olmo e companhia repetirão tamanho domínio com a bola. Jogaço.

É impressionante como a França mantém o tom que garantiu o título há quatro anos. Não tem sido normal, ainda que se mantenha o treinador, ver o campeão defender o troféu com tanta naturalidade. Não é coincidência que os três vencedores anteriores foram eliminados ainda na fase de grupos, que o Brasil não jogou nada depois do penta, que antes a França de Zidane também fracassou na Ásia. Chegaram no evento seguinte envelhecidos, arrastados, com aquela cara de fim de ciclo, de ressaca. Já os franceses de hoje, que perderam por lesão titulares e o acréscimo do melhor jogador do mundo, não só tocam na mesma batida como têm seu artilheiro ainda melhor que na Rússia. Aos 23 anos, Mbappé está voando. É difícil prever quantos jogos ele poderá decidir no Qatar. Poderão ser todos os sete.

Futebol é variedade. Brasil, Espanha e França, três equipes que já jogaram muito bem até aqui, são completamente diferentes. O time francês tem um ritmo bem próprio, não agride loucamente ao perder a bola, até deixa o adversário respirar, mas é avassalador quando faz ela chegar na frente. Passa uma impressão, que às vezes parece até meio blasé, de que escolhe a hora de ganhar o jogo, prefere não se matar pelo resultado. Nada é mais perigoso nesse Mundial que uma bola esticada para Mbappé ou Dembelé, e ninguém até aqui foi um melhor condutor para seus atacantes que Griezmann, desfilando no Oriente Médio. É um timaço.

Curiosamente, na mesma sequência que acumula tantos empates por zero a zero, Mbappé já marcou três vezes, Richarlison duas, Messi duas, Ronaldo deixou o seu e até Lewandowski, finalmente, se emocionou por marcar pela primeira vez no maior campeonato de todos. O polonês, aos 34 anos, garantiu seu lugarzinho nas memórias mundialistas, coisa que Bola de Ouro nenhuma seria capaz de ocupar. É por cenas como essa que a Copa ainda importa e não é possível se alimentar apenas de Champions League.

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