O que clubes brasileiros podem aprender com Barcelona e Lyon

Alexia Putellas Barcelona Femeni 2021-22
Getty
Para chegar à final da Champions League feminina, os clubes investiram na modalidade e já colhem resultados

A final da Champions League feminina entre Barcelona e Lyon neste sábado, 21 de maio, colocará frente a frente dois dos principais clubes que investiram no futebol feminino nos últimos anos.

O time francês enxergou o potencial antes e construiu uma história hegemônica no cenário mundial, conquistando tudo na última década e atraindo sempre as melhores jogadoras para formar uma verdadeira seleção. Já a equipe catalã vem chamando a atenção do mundo não só pelo desempenho em campo, mas também pelos recordes quebrados nas arquibancadas. Só em 2022, por duas vezes o Barça colocou mais de 91 mil pessoas no Camp Nou para ver as mulheres dando show nas quartas e nas semifinais da Champions League.

Foram duas vezes, mas poderiam ter sido mais se houvesse mais jogos decisivos para serem levados ao Camp Nou na temporada. E esse número (ou algo perto disso), podem apostar, será frequente na próxima temporada do Barcelona no futebol feminino, com ou sem o bicampeonato da Champions League deste ano. Isso porque o planejamento que fez o clube catalão chegar até ele foi minucioso - e o resultado não foi por acaso. Alô clubes brasileiros, inspiração não falta.

Barça e Lyon podem ensinar muito aos times daqui sobre como explorar todo o potencial que o futebol feminino oferece. Vamos por partes:

Futebol feminino é negócio, não boa ação

Entre 2010 e 2020, o Lyon esteve em nove finais de Champions League e conquistou sete títulos, inclusive um em cima do Barcelona em 2019. O Barça chegou depois, mas já ameaça colocar essa hegemonia francesa em xeque - o primeiro título da Champions veio em 2021, sem o enfrentamento das duas equipes, mas o segundo poderá vir neste sábado em Turim.

Em comum, as duas equipes têm uma coisa óbvia: passaram a ver no futebol feminino uma oportunidade de negócio. Não é pela “causa” ou para fazer uma “boa ação” que essas duas equipes começaram a investir nas mulheres. Foi porque enxergaram ali um caminho para engajar mais torcedores e, assim, ter um retorno financeiro interessante no futuro.

Em entrevista ao The Guardian ainda em 2019, o presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas disse que o investimento que decidiu fazer no time feminino contribui para o crescimento da modalidade e isso fará com que ele possa ter um retorno maior no futuro.

“É muito importante, não porque seja algo absolutamente necessário, mas porque é algo que pode ser muito enriquecedor. Se você espera muito das jogadoras, também deve dar muito. E nesse sentido pode ajudar o jogo a se desenvolver, porque o investimento que você dá compensa em campo promove o futebol feminino".

Tem muita gente que cai no erro de querer comparar o mercado do futebol feminino com o do futebol masculino. São dois contextos completamente distintos. Enquanto o futebol masculino surgiu há mais de 100 anos e se desenvolveu desde então sem nenhuma limitação, o futebol feminino sofreu com décadas de proibição por lei (no Brasil e em outros países) e passou a ter competições internacionais oficializadas pela Fifa somente há 30 anos. Além disso, enfrenta uma resistência enorme preconceito que paira sobre a modalidade.

Por outro lado, hoje, esse é um mercado com grande potencial para crescimento. A Copa do Mundo feminina em 2019 foi a mais vista da história, quebrou recordes de audiência no Brasil e no mundo, os estádios estavam lotados com um público diferente daquele que nos acostumamos a ver nos jogos masculinos. Famílias inteiras, crianças de todas as idades, idosos, casais LGBTQIA+, pessoas que normalmente têm medo de frequentar estádios nas tradicionais competições dos homens se sentem muito confortáveis e acolhidas nas arquibancadas em jogos femininos. Ou seja, há um grande mercado a ser explorado.

Não há retorno sem investimento

Por décadas, ouvimos dirigentes do mundo do futebol repetirem: “futebol feminino não dá retorno”. Faz parte daquela lista de clichês que as pessoas sempre usaram para falar sobre a modalidade. “Ninguém quer ver”, “não dá audiência”.

Frases vazias que viraram verdades absolutas. Oras, mas como o futebol feminino (ou qualquer outro negócio) poderia dar retorno antes que houvesse investimento? Como as pessoas poderiam “querer ver” os jogos femininos sendo que eles não estavam na TV? Como poderiam garantir que não dava audiência se não havia nenhuma transmissão para as pessoas assistirem?

O Lyon decidiu fazer o que ainda era inédito no futebol das mulheres. Oferecer a elas a mesma estrutura que o clube oferecia para o time masculino. O resultado? Criaram um “monstro” - no melhor dos sentidos, o de colecionar títulos.

“Nosso presidente (Michel Aulas) é um visionário. Ele quer sempre evoluir. Todos os clubes deveriam, não digo copiar, porque cada clube tem uma identidade, mas deveriam ter a mesma estrutura para os homens e para as mulheres. Isso é importante. Para ele (Aulas), não há diferença entre os times masculino e feminino, nós vestimos a mesma camisa, temos as mesmas cores”, contou a zagueira Wendie Renard, capitã do Lyon.

Foi com o investimento realizado que o Lyon se tornou o time a ser batido entre as mulheres no futebol mundial. São sete títulos de Champions, cinco deles conquistados de maneira consecutiva. Uma hegemonia que já está na história da modalidade e que será muito difícil de ser superada - até porque, o Lyon fez outros clubes despertarem para o futebol feminino e mais concorrentes estão chegando ano após ano. É o caso do Barça, time mais próximo de decretar o fim dessa hegemonia (e vai tentar isso no próximo sábado, buscando o bicampeonato).

Comunicação é a alma do negócio

Por último, mas definitivamente não menos importante: comunicar é preciso. Não adianta fazer um alto investimento, ter o melhor time, se você não comunica isso para os seus torcedores, ou se não tem uma estratégia para engajá-los com a equipe feminina.

A cultura mundial do futebol é toda voltada ao futebol masculino. Sendo assim, é preciso que os próprios clubes busquem criar dentro da sua torcida uma cultura de também acompanhar, apoiar, fortalecer o time feminino. Os torcedores não terão como comparecer aos jogos se eles mal sabem onde, quando, contra quem as mulheres estão jogando.

O Barcelona fez isso muito bem ao longo dos últimos anos. Criando uma rede social exclusiva para o time feminino - sem deixar de divulgar as notícias sobre elas na rede principal do clube, mas estabelecendo ali um canal direto com os fãs do futebol feminino -, o Barça reforçou sua marca entre as mulheres, mostrou aos patrocinadores o potencial do time feminino no engajamento com a torcida e, enfim, tornou possível o sonho de encher um Camp Nou só para elas.

Como o Barcelona conseguiu colocar mais de 91 mil pessoas no estádio pela primeira vez (semifinal contra o Real Madrid)? "O jogo foi divulgado EM TODOS OS LUGARES. Outdoors, TV, jornais, enfim, era muito difícil não saber que esse jogo iria acontecer. Os preços dos ingressos foram acessíveis para a grande maioria das pessoas. E viver uma experiência no Camp Nou é algo único na vida de qualquer um, então essa era uma chance de fazer isso por um valor mais acessível, algo que é quase impossível com o time masculino", afirmou Lucy Mills.

E como conseguiu pela segunda vez? Da mesma forma. A divulgação tem que ser massiva. A precificação tem que ser condizente com o contexto do futebol feminino. Vai ter um dia (e não estamos muito longe dele) em que os ingressos para um jogo eliminatório de Champions League feminina serão muito mais caros, até para possibilitar mais retorno para o clube com a renda da partida. Mas é uma construção. É preciso ter paciência e fazer o planejamento correto para poder chegar lá.

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Esse é o ponto que os times brasileiros mais falham: na comunicação do futebol feminino. Somente em 2022, conseguimos ver todos os quatro times grandes de Sâo Paulo tendo redes sociais específicas para o futebol feminino. Dos nove times de camisa da Série A1 do Brasileiro feminino, sete agora têm contas voltadas para os times femininos - faltam apenas Grêmio e Flamengo.

Quem melhor faz isso (e há mais tempo) é o Corinthians. Não à toa, é ele o detentor dos recordes de público das mulheres por aqui, levando mais de 30 mil pessoas para a Neo Química Arena na final do Paulista de 2021. Mas dava para ser beeem melhor se outros clubes seguissem o exemplo do Barça.

Resumindo: há muito a aprender com essas duas equipes. Então, todo mundo com os olhos grudados no DAZN para assistir a esse jogaço no sábado. Barça x Lyon, às 14h, ao vivo no Youtube.

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